COMISSIONAMENTO HUMANO

COMISSIONAMENTO HUMANO

Uma palavra antes de começar

 

Na engenharia, comissionar um sistema significa garantir que ele funcione conforme foi projetado — antes de ser entregue ao mundo. Não basta construir. É preciso verificar, testar, corrigir cada falha encontrada e só então declarar: está pronto para operar.

O comissionador experiente não começa pelo início. Começa pelo final — pelo resultado que se espera — e de lá retroage, mapeando tudo que precisa estar no lugar para que o sistema chegue lá. É uma habilidade. Uma forma de pensar. Uma lógica que, uma vez aprendida, muda a maneira de enxergar qualquer coisa que precise ser construída ou transformada.

Este livro propõe algo simples e profundo ao mesmo tempo: aplicar essa mesma lógica ao ser humano.

O comissionamento humano não é uma metáfora. É uma proposta concreta — de que o ser humano pode e deve ser comissionado, desde os primeiros anos de vida, para operar com a maior integridade possível. Que os sentimentos não são obstáculos a eliminar, mas riquezas a lapidar. Que o mundo interno — invisível, negligenciado, terceirizado para outros por séculos — é o sistema mais importante que existe. E que ninguém pode comissionar esse sistema por você.

O que você encontrará nestas páginas são as diretrizes básicas desse processo. Não respostas definitivas — pontos de partida. Não teoria sem prática — a formalização de algo que foi vivido, testado e verificado ao longo de décadas, desde uma infância incomum numa cidadezinha do Rio de Janeiro.

A história começa ali. E o convite é este: leia com o olhar de quem está prestes a comissionar o sistema mais complexo e mais valioso que já existiu.

O seu.

Marco Vaz



Índice

Prefácio — A lente do engenheiro

Aviso de operação

Prólogo — A criança que queria aprender antes dos 7 anos

A passagem que mudou tudo

O experimento

A pergunta que ninguém queria responder

Valença

O padre que me chamava de pirralho

As três transformações

A matriarca

Uma observação honesta

Por que esta história está aqui

Capítulo 1 — O que é Comissionamento Humano

Uma habilidade, não uma técnica

Como essa habilidade se desenvolve

O visível e o invisível

As fases do comissionamento humano

A relação com o primeiro livro

O que este livro propõe

O perfil do Comissionador Humano

Capítulo 2 — A Janela das Criancinhas

O que foi dito — e o que chegou até nós

A janela de 0 a 7 anos

O que precisa ser plantado

A prova que veio da prática

A ASER — Agência do Sentir, Emoção e Regulação

A diretriz

Capítulo 3 — Comissionando a Vida

O ser humano como operador do próprio sistema

O que trava o sistema

A fé como força ativa

As diretrizes do comissionamento da vida

O mundo que queremos construir

Epílogo — A Porta que se Abriu

A massa crítica

O que este livro não é

O que este livro é

O próximo passo

Referências Bibliográficas

 



Prefácio

A lente do engenheiro

Há uma ciência que nunca teve nome.

Engenheiros de comissionamento passam a vida inteira aprendendo a trabalhar a partir do resultado desejado — do fim para o início. Antes de construir, definem como o sistema deve operar quando estiver pronto. Antes de entregar, verificam se o que foi construído funciona conforme o projeto. É uma disciplina de precisão, de paciência e de visão longa.

Em algum momento da minha trajetória, percebi que essa mesma lógica se aplicava ao ser humano. Não ao corpo físico — a medicina já cuida disso. Não às disfunções emocionais — a psicologia e a psiquiatria têm esse papel. Mas ao sistema invisível que nenhuma dessas ciências comissiona antes que a falha apareça: a alma, os sentimentos, as emoções, os padrões que uma pessoa carrega desde os primeiros anos de vida e que determinam, silenciosamente, tudo que ela faz, sente e escolhe ao longo da existência.

A isso dei o nome de comissionamento humano.

Este não é meu primeiro livro sobre o tema. Em Regras e Lógicas dos Sentimentos e Emoções, publiquei as ferramentas — os instrumentos práticos para trabalhar o sistema interno: reconhecer o que se sente, compreender de onde vem, aprender a regular. Este livro apresenta a arquitetura que organiza essas ferramentas — a estrutura, a lógica e o nome formal do processo. Os dois formam um conjunto. Um diz o quê. O outro diz como.

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Até aqui, talvez você esteja se perguntando: o que tem a ver um engenheiro com a Bíblia?

Tudo. As palavras de Jesus são o documento mais antigo, mais estudado e mais complexo já registrado sobre o funcionamento do ser humano por dentro. A lente do comissionamento pode ser aplicada a esse documento — e essa é uma das possibilidades que o futuro desta metodologia reserva.

Este livro apresenta a fundação — o processo, a lógica, a ferramenta. O que fazer com ela é o que os próximos livros explorarão.

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Aviso de operação

Este livro não é teologia. Não é crítica religiosa. É a apresentação de uma ciência que nunca teve nome — o comissionamento humano — e de uma ideia que ainda precisa nascer: a ASER.

Se você é uma pessoa de fé: este livro não ameaça o que você acredita. Aprofunda. A lente do engenheiro não diminui Jesus — revela a precisão extraordinária do que foi ensinado.

Se você não é religioso: este livro não exige fé. Exige atenção ao que o ser humano é por dentro — e ao que pode ser feito com isso.

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A proposta está aberta. O debate é bem-vindo. O solo é fértil.

* * *



Prólogo

A criança que queria aprender antes dos 7 anos

Esta história começa em 1965, numa cidadezinha chamada Santa Isabel do Rio Preto, distrito de Valença, no estado do Rio de Janeiro. Eu tinha 5 anos de idade.

A casa onde morávamos ficava em frente à igreja principal da cidade. Do lado, separada apenas por uma pequena mureta nos fundos, ficava a casa do padre. Éramos sete irmãos, e tivemos o privilégio raro de crescer com um padre nos abençoando todos os dias. Com o tempo, nos tornamos amigos — uma amizade que, para mim, foi profunda o suficiente para alimentar um desejo: querer ser padre também.

Foi assim que começamos a estudar a Bíblia juntos. Eu não sabia ler. Mas ouvia.

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A passagem que mudou tudo

Em um desses estudos, ele buscou na Bíblia uma passagem que falasse sobre crianças. Encontrou:

"Vem a mim as criancinhas, a elas o Reino é destinado." — Mateus 19:14

Fiquei surpreso. E antes mesmo de fazer qualquer dedução, repliquei ao padre de alto e bom som: se Jesus disse claramente que o Reino é destinado às criancinhas, então não era uma sugestão nem uma metáfora. Era uma declaração. E se não fosse verdade, o que estava escrito na Bíblia seria uma mentira. Foi essa ênfase que fez o padre me levar a sério. A versão que li com ele dizia exatamente isso — de forma direta e sem rodeios. Acredito que a mudança para a versão que circula hoje veio depois, possivelmente junto com a declaração institucional da Igreja de que a responsabilidade pela educação emocional das crianças pertence à área da psicologia e psiquiatria.

E de imediato fiz uma dedução lógica: se para chegar ao Reino de Deus é preciso ser como uma criancinha, então seria preciso não ter ódio, inveja, egoísmo, ciúme, raiva. E se as criancinhas somos nós até os 7 anos — eu tinha até os 7 anos para aprender a deixar de sentir essas coisas.

Isso me preocupou. De verdade. Eu tinha 5 anos e o tempo estava passando.

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O experimento

O padre percebeu algo em mim que foi além do estudo da Bíblia. Na nossa convivência diária, ele observou algumas atitudes minhas — entre elas, uma inveja silenciosa do meu irmão mais velho, que era o orgulho da mamãe. Eu queria ser ele, estar no lugar dele.

Com toda a sutileza que tinha, ele começou um experimento. Não me disse o que sentir. Não me deu uma regra. Apenas foi me ajudando a enxergar que meu irmão era bonzinho, que merecia o carinho que recebia — e eu concordei de coração, porque gostava muito dele. Depois, em outros momentos de expressão de orgulho da mamãe, percebi que algo havia mudado em mim. Em vez de inveja, sentia alegria por ele. Mas disse ao padre que ainda queria que mamãe tivesse orgulho de mim também. Ele sorriu e me mostrou que eu podia fazer outras coisas boas para isso acontecer.

Depois vieram outros sentimentos — o perdão, o egoísmo, a raiva. Cada um trabalhado a partir de situações reais da minha vida, observadas por ele com cuidado, com paciência, sem julgamento. O padre ficou deslumbrado com o que via acontecer. Tanto que logo depois foi promovido e transferido para o Rio de Janeiro — de onde contou essas histórias para a Igreja. Queriam me levar ao Vaticano para fazer experimentos comigo.

Eu não quis ir. Tinha 7 anos — a janela que tanto me preocupara havia passado. O que precisava aprender dentro dela já estava aprendido, ou não estava mais ao alcance. E a visão deles era completamente diferente da minha. Queriam explorar minhas interpretações de trechos da Bíblia — exatamente o que estou fazendo agora, neste livro, décadas depois. Mas imagina uma criança de 7 anos tentando convencer uma instituição inteira. Não era o lugar, não era a hora, não era o caminho.

Havia também outro medo — talvez o maior. Não queria envolver minha família nisso. Sabia que a Igreja poderia convencê-los da importância daquilo para a humanidade. E minha família, por fé e respeito à instituição, poderia ceder. Sozinho era mais fácil dizer não. Com a família envolvida, a pressão seria impossível de segurar.

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A pergunta que ninguém queria responder

Mas antes da mudança para Valença, uma inquietação não me largava. Se essa janela de 0 a 7 anos era tão importante — quem tinha a responsabilidade de ensinar as crianças a lidar com seus sentimentos? Fui perguntar ao padre. Ele disse que era responsabilidade dos pais. Fui perguntar à minha mãe. Ela disse que era responsabilidade da Igreja — porque ela mesma nunca havia aprendido isso em lugar nenhum.

Cada um apontava para o outro. E eu, com 5 anos, não podia aceitar essa resposta.

Então armei uma situação. Convenci o padre de que queria conversar com minha mãe sobre meu desejo de ser padre no futuro — o que era, em parte, verdade. Mas meu objetivo real era colocá-los frente a frente para que nenhum dos dois pudesse mais se esquivar. Quando os três estávamos juntos, dei o meu recado. Eles ficaram bem chateados comigo pela articulação, mas no final chegaram a uma conclusão: deveria ser pela escola.

Não era comum. Eles mesmos disseram isso. Mas era o que fazia sentido. E como estávamos de mudança para Valença, ficou combinado que eu e minha mãe iríamos pedir à escola que ensinasse sobre os sentimentos na sala de aula.

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Valença

Em Valença, tentei. Minha mãe tinha sete filhos e outras preocupações — a bandeira teria que ser minha. Falei com minha professora. Ela entendeu, ficou entusiasmada, e junto com a turma inteira pedimos uma audiência com a diretora.

O pedido era simples e claro: queria que a escola ensinasse as crianças a lidar com os próprios sentimentos. Raiva, inveja, medo, tristeza — aprender a reconhecer, entender e lidar com o que se sente por dentro. Na sala de aula, como qualquer outra matéria.

No dia marcado, saímos em fila — eu e a Diva na frente de mãos dadas, como a professora nos instruiu, e a turma nos seguindo. Mas no caminho, um por um foram voltando. A Diva foi até a porta comigo — minha paixãozinha da escola, como uma força de apoio até onde eu precisava. Quando entrei na sala da diretora, contei o que queria. A professora chorou. A diretora quase caiu da cadeira. Ficaram de ver como resolver depois. Não resolveram. A vida seguiu.

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O padre que me chamava de pirralho

Em Valença havia um padre diferente. Morava perto da escola, e todos os dias na saída me esperava. Tinha recebido ordens superiores para me acompanhar — era a Igreja tentando obter a contraprova de que precisava para me levar. Mas esse padre não gostava de mim. Não entendia o que via, e talvez carregasse uma mágoa: havia esperado mais de 40 anos por uma promoção que nunca veio, enquanto o padre jovem de uma cidadezinha pequena — por causa das histórias que envolviam meu nome — havia sido promovido rapidamente.

Todos os dias me chamava de pirralho. Todos os dias pedia a contraprova, ironizando uma criança de quase 7 anos.

Um dia resolvi agir. Já havia combinado com meu amigo Dunga que em troca de ele me ajudar, eu iria ao bairro dele — embora ainda não soubesse bem o que faria lá. Para cumprir minha parte, precisava primeiro resolver o padre. Combinei com Dunga uma briga falsa — ele xingaria minha mãe na hora em que o padre chegasse, eu daria um soco, nos agarraríamos de mentirinha, e o padre nos separaria. Funcionou. Quando ele me segurou pelos ombros e perguntou por que eu havia brigado, respondi que honro ser filho de minha mãe e de meu pai. Então acrescentei que não gostava de ser chamado de pirralho.

Ele se enfureceu. Me levantou do chão, me segurou suspenso, e gritou duas vezes — a segunda mais forte — PIRRALHO. Com todo mundo da escola e da rua olhando. Vi nos seus olhos o impulso de me jogar na rua.

Naquele momento, pensei: PAI.

Foi só começar a pensar nisso e ele se acalmou. Estranhamente, imediatamente. Me abaixou. Perguntei se podia me soltar — soltou. Observei meus ombros, que doíam. Perguntei se podia ir embora. Fui, tranquilamente, enquanto a rua inteira ficou em silêncio.

Era a contraprova contrária que eu queria produzir — mostrar que era uma criança normal, nada de especial — para que a Igreja me esquecesse de vez. O padre que estava no Rio entendeu o recado e considerou suficiente como contraprova. Havia, porém, duas posições dentro da Igreja: ele achava que bastava, mas seus superiores não concordavam. Para eles, aquilo não era prova suficiente. Precisavam de outra — e foi exatamente essa outra que veio, dias depois, no sentido oposto ao que eu queria.

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As três transformações

Meu amigo Dunga tinha uma história. Morava no bairro Santa Cruz — um bairro marginalizado, onde metade das famílias era parente dele. A família era dona da pedreira da cidade. Mas o avô havia morrido recentemente, os negócios estavam em pânico, e os netos haviam se tornado os ladroesinhos temidos por todos. Inclusive pelo meu pai, que tinha uma oficina naquela rua e foi forçado a fechá-la por causa dos furtos constantes — crianças de 3 a 8 anos.

A avó de Dunga havia sonhado comigo. Quantas vezes, não sei ao certo — talvez o diário que ela deixou descrevesse isso, mas esse diário se perdeu. O que sei é que Dunga me lembrava disso todo dia, insistentemente, até que — por não querer deixar meu amigo na mão — fui. Com muito medo. Desobedecendo meus pais. Tremendo por dentro.

Quando cheguei, a turminha estava lá, com o líder mais velho à frente — o temido por todos. Cumprimentei. Perguntei o que queriam comigo. Eles também não sabiam.

Olhei para as roupas deles — uma pobreza que doía de ver. E olhei para trás. A pedreira. Enorme, sólida, cheia de valor. Disse, com toda a naturalidade: se eu tivesse essa riqueza de vocês, comprava uma moto Kawasaki e uma BMW.

Eles ficaram espantados. Que riqueza? Apontei para a pedreira. Um dos meninos saiu correndo para contar à avó. Naquele mesmo dia, o gerente da pedreira — que tinha mais confiança do patrão do que os próprios filhos, e que roubava a família há anos — desapareceu. A avó, ao ouvir o que as crianças haviam dito sobre a pedreira, entendeu o que estava acontecendo. Essa foi a primeira transformação que testemunhei.

Pouco depois chegou o mais levado da turma — o mais novo, uns 3 ou 4 anos. Chegou todo feliz com um velocípede que havia acabado de pegar. Estava sem uma rodinha — ele nem havia percebido. Os outros deram risadas. Ele desconversou, dizendo que ia encontrar outra rodinha, que a fama dele era de saber consertar brinquedos. Naquele dia, por raro acaso, eu tinha uma nota no bolso — muito dinheiro para a época. Perguntei se faria um serviço para mim por aquele valor. Disse que era simples: levar o velocípede de volta, tocar a campainha, pedir desculpa e devolver. Ele gostou da proposta. Foi todo orgulhoso, achando fácil. Demorou. Quando voltou, estava pálido, do outro lado da rua, todo envergonhado. Havia esquecido o dinheiro. Não queria mais. A transformação já tinha acontecido por dentro. Essa foi a segunda transformação que testemunhei.

O terceiro foi com o líder. Ele me chamou para uma conversa em particular — só nós dois. Fiquei nervoso. Mas fui. Ele foi quem abriu a conversa, perguntando como eu poderia tirar a dúvida do certo e do errado. Respondi que eu tinha essa mesma dúvida sempre. Disse que o certo e o errado seguem a mesma regra do bem e do mal — que o que é certo para um pode não ser para outro, dependendo da situação. Que diante dessa dificuldade eu usava uma instrução simples: analisar se o que fosse fazer ia ser bom ou ruim para mim. Ele parou. Pensou em algo interno — não sei o que foi. Mas respondeu super feliz, dizendo que daquela forma conseguia distinguir. Essa foi a terceira transformação que testemunhei.

Cerca de vinte anos depois, ele me procurou. Surpreendentemente. Veio agradecer — disse que tudo havia melhorado na vida dele com aquela estratégia. Tinha uma filha, estava casado. Mas estava num momento de desespero e precisava conversar. Havia duas opções na cabeça dele — descartou de imediato qualquer atitude de se ferir fisicamente, mas estava pensando em fugir e começar uma vida nova longe de tudo. Ouvi com atenção, fiz algumas perguntas, e com o que ele me contou encontramos juntos uma saída que preservava o que ele mais amava. Ele foi embora aliviado. Me agradeceu como da outra vez — com aquela mesma felicidade de quem encontrou o caminho pelo próprio raciocínio. A bússola que havia recebido aos 7 anos o salvou décadas depois.

Era a primeira vez que ele vinha à minha casa — que me encontrou. Demos boas risadas — éramos amigos, do tipo que aparece quando precisa. Meu pai estava por perto e acabou ouvindo toda a conversa sem saber quem ele era. Depois que me despedi, meu pai me perguntou quem era aquele rapaz — ficou surpreso com a conversa. Contei a ele que era o líder do bairro Santa Cruz. O mesmo que roubava a oficina dele quase todos os dias, até ele ser obrigado a fechá-la. Meu pai ficou em silêncio.

Naquele dia veio a contraprova irrefutável que a Igreja esperava — só que no sentido oposto ao que eu queria.

No dia seguinte, o bairro inteiro se transformou. Fiquei famoso sem conhecer quase ninguém — mas todos sabiam o que havia acontecido.

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A matriarca

No dia seguinte, a avó de Dunga me viu. Se ajoelhou diante de mim. Estava extasiada — como alguém que esperou muito tempo por algo que não sabia nomear e de repente o vê diante dos próprios olhos. Havia sonhado comigo como um anjo, e ali estava eu. Disse que somente aquele dia em que me conheceu havia valido a pena ter vivido. Que ter me conhecido era suficiente. Para ela, pela fé que carregava, o que havia acontecido era um milagre. Para mim, não havia milagre nenhum. Havia ações naturais — e do outro lado, transformações interiores reais. O comissionamento não trabalha com milagres. Trabalha com processos. E processos podem surpreender — inclusive quem os observa de fora.

Meu amigo sussurrou: acho que a vovó enlouqueceu.

Para mim, caiu a ficha. Aquilo era a contraprova que a Igreja esperava. Fiquei desesperado. Supliquei à senhora que não deixasse me levar — que eu queria ser criança, que estava apaixonado por uma menina na escola, que queria ter família, ter filhos. Ela era uma católica de fé profunda e disse que não poderia deixar de registrar o que havia acontecido. Fez um diário, que deixou com os netos para chegar até mim — mas parece que se perdeu com o tempo. O que existiu, existiu. Se os registros ainda estão na Igreja Católica, não sei dizer.

O que sei é que ela intermediou com o padre da cidade. E o padre — aquele mesmo que me chamava de pirralho, que havia esperado décadas por uma promoção, que me havia levantado do chão com raiva — foi ele quem me salvou. Usou o crédito que tinha junto à Igreja para desconversar, para dizer que as provas eram de casos usuais, nada extraordinário.

Depois disso, nossos olhares mudaram. Quando nos cruzávamos, havia ternura. Havia respeito. Sem precisar de nenhuma palavra. Foi nesse momento que entendi o que ele havia feito por mim.

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Uma observação honesta

Há uma observação que não consigo deixar de registrar. A passagem que deu origem a tudo em sua forma mais direta seria: "Vem a mim as criancinhas, a elas o Reino é destinado." Uma declaração sobre as criancinhas. Uma responsabilidade clara de formá-las na janela mais fértil da vida. A versão que circula hoje nas Bíblias modernas soa diferente — como uma instrução aos adultos de não impedir as criancinhas de se aproximar. São ênfases distintas, e ênfases distintas produzem responsabilidades distintas.

O que se pode observar é que a responsabilidade de formar a criança nessa janela — de ensinar os sentimentos, de lapidar as riquezas internas — ficou, ao longo do tempo, sem um dono claro. A Igreja delegou para os pais. Os pais delegaram para a Igreja. Com o tempo, a responsabilidade pela saúde emocional das crianças migrou para as ciências da saúde — medicina, psicologia, neurociência. E essas áreas, em sua maioria, tratam o que já está quebrado — não formam antes que a quebra aconteça. A criança continuou no meio. Este livro nasceu porque alguém precisava parar de delegar. E a ideia da ASER nasceu do mesmo lugar — da percepção de que essa responsabilidade precisa de um dono.

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Por que esta história está aqui

Conto tudo isso não para impressionar. Conto porque sem esse contexto, o que vem nos próximos capítulos pode parecer uma interpretação ousada — ou pior, uma irreverência.

Não é. É a continuação de uma conversa que começou em 1965, numa cidadezinha do Rio de Janeiro, entre um padre e uma criança que não sabia ler mas conseguia ouvir.

Tudo que está neste livro — o comissionamento humano, a leitura das palavras do Mestre, a proposta da educação emocional para as criancinhas — nasceu ali. Demorou décadas para ganhar forma, palavras e estrutura. Mas a semente foi plantada antes dos 7 anos.

Como deveria ser.

* * *

Santa Isabel do Rio Preto, distrito de Valença, Rio de Janeiro — 1965.



Capítulo 1

O que é Comissionamento Humano

Antes de qualquer explicação, vale entender de onde vem o termo.

Na engenharia, comissionamento é o processo de verificar, testar e colocar em operação um sistema — uma planta industrial, uma tubulação, um equipamento — garantindo que tudo funcione conforme foi projetado, antes da entrega final. Não é apenas construir. É assegurar que o que foi construído realmente opera, que as falhas foram identificadas e corrigidas, e que o sistema está pronto para funcionar com segurança e eficiência.

O comissionamento humano parte da mesma lógica — e a aplica ao ser humano.

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Uma habilidade, não uma técnica

O comissionamento é uma qualidade — pessoal ou profissional — de construir ou analisar qualquer conteúdo a partir do desejado no final. Não do início para o fim, mas do fim para o início — partindo sempre do resultado desejado para definir o caminho.

No caso humano, essa mesma visão se aplica à vida. A partir de um objetivo claro — de como se quer ser, de como se quer viver, de como se quer sentir — o comissionamento traça o caminho de volta, identificando o que precisa ser construído, verificado e corrigido para que tudo funcione da forma mais íntegra possível.

Verificar, testar e corrigir não é sinal de fraqueza — é o coração do processo. O comissionamento humano não espera a falha acontecer. Antecipa. Mitiga. Prepara o sistema para atuar antes que uma quebra menor se torne um rompimento maior. O objetivo não é a perfeição absoluta — é a operação mais sólida e segura possível, com o menor número de falhas evitáveis.

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Como essa habilidade se desenvolve

O comissionamento humano pode se manifestar de duas formas. Em alguns casos é uma habilidade natural — algo que a pessoa traz consigo, que opera intuitivamente sem ter aprendido formalmente. Em outros, é uma competência desenvolvida — aprimorada com treinamento, com técnicas e com prática deliberada, tanto no campo pessoal quanto profissional.

E há um terceiro caminho, ainda em construção: formar essa habilidade desde o início, na janela mais fértil do desenvolvimento humano. É exatamente o que a ideia da ASER propõe — que o ser humano tenha acesso a esse aprendizado desde a gestação, quando o sistema ainda está mais aberto para receber, transformar e integrar. Uma ideia que ainda está nascendo — e cujo primeiro passo concreto começa com as crianças de 1 a 5 anos.

Este livro apresenta as diretrizes básicas do comissionamento humano. Cada uma delas é um ponto de partida — um fundamento que pode ser desenvolvido posteriormente em práticas, métodos e aplicações mais detalhadas.

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O visível e o invisível

No comissionamento industrial, tudo é visível. Tubulações, instrumentos, estruturas, conexões — é possível tocar, medir, inspecionar e identificar onde está a falha com precisão. O sistema se deixa ver.

No comissionamento humano, o sistema principal é invisível. Sentimentos, crenças, memórias, padrões que se repetem, dores que não foram curadas — nada disso aparece num relatório técnico ou numa inspeção visual. O comissionador humano precisa desenvolver outros sentidos para enxergar o que está por baixo do que se mostra.

Essa é a diferença fundamental entre os dois campos. E é também o que torna o comissionamento humano ao mesmo tempo mais desafiador e mais necessário — porque os sistemas invisíveis são os que mais impactam a vida de uma pessoa, e os que menos atenção recebem.

Uma analogia útil: o médico faz o check-up do corpo físico — o sistema visível. O psicólogo investiga e trata as disfunções do sistema interno. O comissionador humano faz algo diferente dos dois: parte do resultado desejado e verifica o que precisa ser construído, corrigido e preparado para que o sistema opere com integridade — antes que a falha aconteça.

A diferença em relação à psicologia é importante de nomear. A psicologia diagnostica, trata e busca resolver disfunções e sofrimentos do sistema interno — parte do problema para encontrar a cura, olha para o que está errado. O comissionamento humano parte do resultado desejado e constrói o caminho de volta — não espera a disfunção aparecer, antecipa, verifica e prepara o sistema para operar antes da falha. Olha para o que se quer ser. É a mesma diferença entre a medicina curativa e a medicina preventiva. Ou entre o engenheiro que conserta a planta que quebrou e o comissionador que prepara o sistema para operar bem, com eficiência.

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As fases do comissionamento humano

Assim como na engenharia, o comissionamento humano tem fases bem definidas.

Antes: o planejamento interno. O reconhecimento de quem se é, do que se sente, do que ainda não foi curado. A identificação do objetivo — de como se quer operar ao final do processo. É a fase de levantamento honesto do sistema, sem julgamento, sem pressa.

Durante: o acompanhamento contínuo. Observar as reações, identificar os padrões que se repetem, perceber os momentos em que o sistema falha sob pressão. Não para se punir — mas para corrigir enquanto ainda há tempo, antes que uma falha pequena se torne um colapso maior.

Depois: a verificação do resultado. O sistema está operando conforme o objetivo definido? O que ainda precisa ser ajustado? Quais falhas foram corrigidas e quais ainda estão em aberto? O comissionamento humano não tem um ponto final definitivo — é um processo contínuo de verificação, ajuste e aprimoramento.

Tudo detalhado. Com clareza de como, onde e quando lidar com o que está por dentro — e como curar o que ainda precisa ser curado.

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A relação com o primeiro livro

O comissionamento humano como estrutura formal é proposto aqui pela primeira vez. Mas as ferramentas que o compõem já existem — foram desenvolvidas e descritas em Regras e Lógicas dos Sentimentos e Emoções, obra anterior do mesmo autor.

Os dois livros são complementares. O primeiro descreve o conteúdo do sistema interno — os sentimentos, as emoções, as regras e lógicas que os governam, as ferramentas para lidar com eles. Este livro traz a arquitetura que organiza e direciona esse conteúdo — o nome, a estrutura e a lógica formal do processo.

Um diz o que trabalhar. O outro diz como estruturar esse trabalho do início ao fim, com objetivo definido. Juntos, formam um conjunto completo.

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O que este livro propõe

O comissionamento humano não é uma promessa de vida perfeita. É uma proposta de vida mais consciente — construída a partir do objetivo, verificada ao longo do caminho, corrigida com honestidade quando necessário.

As diretrizes que este livro apresenta são fundamentos. Cada uma delas pode ser desenvolvida em profundidade, em treinamentos, em práticas, em aplicações específicas para diferentes contextos e fases da vida. O que se oferece aqui é a base — sólida o suficiente para sustentar tudo que pode ser construído a partir dela.

E essa base, como toda boa engenharia, começa pelo final: pelo ser humano que se quer ser, pelo sistema que se quer operar, pelo resultado que se quer entregar — a si mesmo e ao mundo.

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O perfil do Comissionador Humano

Quem opera o comissionamento humano carrega um conjunto de aptidões que o distinguem do padrão comum — não por superioridade, mas por uma forma diferente de processar e enxergar o mundo.

O comissionador pensa sempre do fim para o início. O objetivo final não é ponto de chegada — é ponto de partida. Antes de falar ou escrever, faz um loop interno até ter certeza plena. Não fecha antes disso. Quando fecha, fala com propriedade.

Tem agilidade incomum para interligar fatos aparentemente distantes a uma situação específica que precisa resolver. Interpreta com clareza os impactos futuros — positivos e negativos — de qualquer atitude ou falha. Não é previsão. É leitura de consequência.

É persistente em demasia. Focado até o final. Criterioso nos detalhes que outros ignoram — porque sabe que o detalhe pequeno pode gerar impacto grande. Perseverante e determinado mesmo quando o ambiente ao redor não compreende o processo.

Tem uma habilidade singular: introduz em uma conversa algo aparentemente incompatível com o contexto — que carrega uma conexão não óbvia. Quando alguém capta e liga os fatos, chega a uma solução surpreendente. O comissionador não reconhece o que fez como inteligência — para ele era simples, óbvio, banal. A surpresa dos outros genuinamente não faz sentido para ele. Não é modéstia — é a marca de quem opera num nível que não consegue medir a partir de fora.

No campo profissional, encontra soluções certeiras, simples e surpreendentes — com grande respeito pelo resultado, não pela aparência do processo. A solução parece óbvia depois que é encontrada. Mas ninguém havia visto antes.

A diferença central em relação ao padrão humano: o padrão opera no presente e no visível. O comissionador opera no futuro e no invisível — e por isso frequentemente não é compreendido no processo, apenas no resultado.

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Capítulo 2

A Janela das Criancinhas

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O que foi dito — e o que chegou até nós

Há uma passagem que está na origem de tudo que este capítulo propõe. Em sua forma mais direta, ela seria:

"Vem a mim as criancinhas, a elas o Reino é destinado."

Uma declaração sobre as criancinhas. Uma afirmação de que o Reino — as riquezas internas, o estado de plenitude e alinhamento que todo ser humano pode alcançar — pertence a elas. Não como metáfora. Como realidade concreta, destinada àqueles que ainda estão na janela mais fértil da existência.

A versão que circula hoje nas Bíblias modernas soa diferente:

"Deixai as crianças virem a mim e não as impeçais, porque o Reino dos Céus pertence aos que se parecem com elas." — Mateus 19:14

São ênfases distintas. A primeira é uma declaração — o Reino é destinado às criancinhas. A segunda é uma instrução aos adultos — não impeçais. Uma coloca a responsabilidade na formação da criança. A outra dilui essa responsabilidade numa orientação de não obstrução.

O que se pode observar é que ênfases diferentes produzem responsabilidades diferentes. E que a responsabilidade de formar a criança nessa janela — de ensinar os sentimentos, de lapidar as riquezas internas — ficou, ao longo do tempo, sem um dono claro. A Igreja delegou para os pais. Os pais delegaram para a Igreja. Com o tempo, a responsabilidade pela saúde emocional das crianças migrou para as ciências da saúde — medicina, psicologia, neurociência. E essas áreas, em sua maioria, tratam o que já está quebrado — não formam antes que a quebra aconteça.

A criança continuou no meio. A janela continuou se fechando. E o que Jesus apontou como destino — o Reino como riqueza interna a ser cultivada desde o início — continuou sendo adiado para depois, para mais tarde, para quando houver tempo.

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A janela de 0 a 7 anos

As criancinhas somos nós entre 0 e 7 anos. Nessa fase, o ser humano ainda está mais aberto, mais receptivo, menos mecanizado pelos condicionamentos que chegam depois. O sistema ainda não desenvolveu as resistências, os filtros e os padrões de defesa que o tempo e as experiências constroem. O que chega nessa janela chega fundo — e acompanha a vida inteira.

Essa não é apenas uma observação espiritual. É uma diretriz do comissionamento humano. O sistema precisa ser comissionado na fase em que está mais disponível para receber. Tentar fazer depois o que não foi feito antes é possível — mas exige muito mais esforço, muito mais resistência a vencer, muito mais caminho a percorrer. O que se planta antes dos 7 anos cresce diferente do que se planta depois.

A janela não se fecha de vez aos 7 anos. O ser humano pode aprender, curar e se desenvolver em qualquer fase da vida. Mas há uma diferença real entre o aprendizado que entra num sistema ainda aberto e o aprendizado que precisa primeiro desfazer o que já está instalado para então instalar o novo.

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O que precisa ser plantado

O Reino, nessa leitura, são as riquezas internas — sentimentos e emoções que todo ser humano carrega e que, com cuidado e educação, podem ser lapidados ao longo da vida. Não são problemas a eliminar. São um patrimônio a ser descoberto, compreendido e desenvolvido.

Os sentimentos que causam desconforto — raiva, inveja, medo, ciúme, egoísmo, tristeza — não precisam ser suprimidos. Precisam ser reconhecidos, compreendidos e transformados. Cada um deles tem uma função. Cada um deles, quando compreendido, pode se tornar um aliado. O que machuca quando ignorado ou reprimido pode curar quando acolhido e trabalhado.

É exatamente isso que precisa ser plantado na janela de 0 a 7 anos: a capacidade de reconhecer o que se sente, de compreender de onde vem, e de saber como lidar e como curar. Não como conceito abstrato — como prática concreta, vivida no dia a dia, aprendida pela experiência.

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A prova que veio da prática

O que está sendo proposto aqui não é teoria. É a formalização de algo que já foi testado e que funcionou.

No prólogo deste livro está a história de uma criança de 5 anos que, por circunstâncias únicas, teve acesso a um processo de educação emocional dentro da janela de 0 a 7 anos. Sentimentos como inveja, raiva e egoísmo foram trabalhados na prática — com cuidado, com paciência, sem julgamento. O resultado foi real e verificável: transformação interna, mudança de comportamento, capacidade de sentir diferente diante das mesmas situações.

Não foi magia. Foi comissionamento. Um sistema recebeu atenção, cuidado e verificação na fase em que estava mais disponível para ser formado. E operou diferente a partir daí.

A base científica que sustenta essa experiência está desenvolvida em Regras e Lógicas dos Sentimentos e Emoções, obra complementar a este livro. A neurociência chegou décadas depois e confirmou o que a prática já havia demonstrado: os primeiros anos de vida são decisivos para a formação emocional do ser humano.

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A ASER — Agência do Sentir, Emoção e Regulação

Se a NASA explora o espaço exterior com ciência e engenharia, alguém precisa explorar o espaço interior do ser humano com o mesmo rigor. Essa é a ideia que dá origem à ASER — Agência do Sentir, Emoção e Regulação.

A ASER ainda não existe como instituição. É uma ideia — grande, necessária e ainda sem forma definitiva. Uma agência com missão de gerir e coordenar o alinhamento educacional e espiritual do ser interior humano, conectando todas as disciplinas que têm relação com o mundo interno: psicologia, neurociência, filosofia, religião, espiritualidade, educação e além. Da gestação até o fim do ciclo de vida na Terra.

O primeiro passo concreto já foi dado: o projeto de ensino emocional para crianças de 1 a 5 anos. É também o maior desafio — mostrar que é possível, que funciona, que transforma. Se funcionar aqui, a ASER tem chão para crescer.

O recurso disponível hoje para quem quer iniciar esse trabalho é o livro Regras e Lógicas dos Sentimentos e Emoções — as ferramentas práticas para reconhecer o que se sente, compreender de onde vem, regular e transformar. A ASER, quando nascer, virá formalizar e expandir o que esse livro já iniciou.

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A diretriz

A diretriz central deste capítulo é simples: o comissionamento humano precisa começar cedo — desde a gestação. Com acesso a ferramentas reais de reconhecimento, compreensão e transformação dos sentimentos. Em ambiente seguro, com presença adulta consciente, e com continuidade suficiente para que o aprendizado se consolide.

Onde isso não foi possível na infância — e para a maioria das pessoas não foi — o comissionamento começa agora. Com o que se tem. Com a honestidade de olhar para o próprio sistema e identificar o que ainda precisa de atenção. O ponto de partida não é o ideal. É o real.

E o real, quando visto com honestidade e trabalhado com método, é suficiente para começar.

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Capítulo 3

Comissionando a Vida

Se existe uma pergunta que o comissionamento humano convida a fazer, talvez seja esta: o que é mais importante para a humanidade — explorar o mundo externo ou o mundo interno?

A resposta, pelo olhar do comissionamento, é clara. O mundo externo pode ser explorado indefinidamente — e continuará existindo independentemente do que fazemos. O mundo interno é o único sistema que depende exclusivamente do seu operador para funcionar. Ninguém pode fazer esse trabalho por você.

E há uma relação de causalidade direta que a história confirma: o ser humano que se transforma por dentro muda o que entrega para fora. Explorar o mundo externo expande o que se conhece. Explorar o mundo interno expande o que se é. E o que se é determina tudo que se faz.

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O ser humano como operador do próprio sistema

O comissionamento humano parte de uma premissa simples e exigente: o ser humano é o operador do próprio sistema interno. Não uma vítima das circunstâncias, não um produto apenas do que recebeu na infância, não um espectador aguardando que algo externo o transforme. Um operador — responsável por verificar, ajustar, corrigir e colocar o sistema em operação conforme o melhor que consegue ser.

Isso não nega o peso do que foi vivido. O comissionamento reconhece tudo isso — e propõe que o trabalho comece exatamente daí. Não do ideal, mas do real. Com o que se tem. No ponto em que se está.

O operador que conhece o próprio sistema — que sabe onde estão as falhas, onde estão os pontos de resistência, onde ainda há pendências a resolver — tem muito mais condições de agir com eficácia do que aquele que nunca abriu o painel de controle interno. O autoconhecimento não é um luxo espiritual. É o primeiro requisito do comissionamento.

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O que trava o sistema

Há obstáculos reais que impedem o ser humano de assumir o papel de operador do próprio sistema. Não são fraquezas pessoais — são programações instaladas ao longo de séculos, que encontraram na religião e na cultura formas eficazes de se perpetuar.

O primeiro é o medo plantado. Não o medo natural que avisa sobre perigos reais — esse é saudável e necessário. Mas o medo condicionado, instalado gradualmente para amedrontar e controlar: ideias de demônio, de punição eterna, de condenação para quem questiona, para quem olha para dentro, para quem não segue a orientação estabelecida. Esse terrorismo espiritual e emocional ataca exatamente o ponto mais vulnerável — o mundo interno — e afasta o ser humano de si mesmo antes que o trabalho possa começar. Quem tem medo de olhar para dentro nunca comissiona o próprio sistema.

O segundo obstáculo é o atalho externo. Todo ser humano conhece suas próprias falhas não resolvidas — a questão é que é muito mais confortável seguir uma orientação que diz que está resolvido do que enfrentar honestamente o que ainda está aberto. Basta pedir perdão a Deus e está salvo. Basta se declarar ou batizar e está garantido. O rito substitui o processo. O gesto externo resolve o que apenas o trabalho interno pode transformar. E o ser humano segue carregando os mesmos padrões, as mesmas dores, as mesmas programações — com a sensação confortável de que já está resolvido. Não está. O comissionamento não tem atalho.

O terceiro obstáculo é a espera pela transformação milagrosa. A crença de que uma intervenção externa futura vai resolver o que o trabalho interno deveria fazer agora. O sistema humano em modo de espera indefinida — standby — aguardando uma intervenção que dispense o comissionamento. E enquanto espera, os padrões se repetem. As dores não curadas passam para os filhos. As criancinhas chegam aos 7 anos sem ter sido formadas. O ciclo continua.

Os três obstáculos têm algo em comum: retiram o ser humano do papel de operador e o colocam em posição passiva — com medo, com atalho, ou em espera. O comissionamento propõe o oposto: o ser humano como agente ativo e responsável do próprio sistema interno.

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A fé como força ativa

Nada do que foi dito acima é uma crítica à fé. É uma distinção entre fé ativa e passividade disfarçada de fé.

A fé, pelo olhar do comissionamento, não tem definição — é um movimento de ação consciente. Não é aguardar passivamente que a transformação venha de fora sem que o operador faça a sua parte. É o operador que age, com Deus integrado ao processo, não como substituto dele.

O ser humano que comissiona a própria vida não abandona a fé — aprofunda-a. Porque descobre, na prática, que o trabalho interno e a força espiritual não são opostos. São parceiros. E que juntos produzem resultados que nenhum dos dois alcançaria sozinho.

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As diretrizes do comissionamento da vida

Comissionar a vida é aplicar ao ser humano a mesma lógica que se aplica a qualquer sistema: partir do resultado desejado, planejar o que precisa ser feito antes, durante e depois, verificar continuamente, corrigir sem demora e operar com a maior integridade possível.

A primeira diretriz é o autoconhecimento honesto. Antes de qualquer coisa, o operador precisa conhecer o próprio sistema — onde estão as forças, onde estão as fragilidades, o que ainda não foi curado, o que está operando fora do especificado. Sem esse levantamento inicial, qualquer intervenção opera no escuro.

A segunda é a definição do objetivo. Para onde se quer ir? Como se quer ser? Que tipo de ser humano se quer entregar ao mundo e a si mesmo? O comissionamento começa pelo final — e sem um final claro, não há caminho a traçar.

A terceira é a ação contínua sobre o mundo interno. Não uma transformação instantânea por decreto — mas o trabalho diário, paciente e honesto de reconhecer o que se sente, compreender de onde vem e escolher como operar a partir daí. Sentir, compreender e regular — o ciclo que o comissionamento humano propõe desde a infância e que se aplica em qualquer fase da vida. É também o coração do que a ASER, quando nascer, virá a formalizar e expandir.

A quarta é a correção sem julgamento. Quando o sistema falha — e vai falhar — o comissionador não paralisa na autocrítica. Identifica a falha, entende a causa, corrige o que é possível e segue. O erro é dado de operação, não sentença de valor.

A quinta é a consciência do impacto. O ser humano que se transforma por dentro não muda apenas a si mesmo. Muda o que entrega para os filhos, para as pessoas ao redor, para o mundo que vai deixar depois de si. O trabalho interno é o trabalho mais coletivo que existe — porque seus frutos não ficam apenas com quem o faz.

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O mundo que queremos construir

Moralmente falando, a transformação interna é o trabalho mais importante que um ser humano pode fazer pela humanidade. Não porque o mundo externo não importe — importa muito. Mas porque o mundo externo é construído por seres humanos. E seres humanos constroem a partir do que são por dentro.

Uma criança formada emocionalmente nos primeiros anos de vida — que aprendeu a reconhecer o que sente, a compreender e a regular — se torna um adulto que opera diferente. Esse adulto forma filhos diferentes. Que formam uma sociedade diferente. Não é uma utopia distante. É uma cadeia de causalidade direta.

A NASA nos levou à Lua. A ASER — Agência do Sentir, Emoção e Regulação — é a ideia que pode nos levar à paz. Ainda não existe como instituição. Mas a ideia está aqui. O primeiro passo está dado. E o que começa com uma ideia honesta e necessária tem chão para crescer.

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A Porta que se Abriu

"Pedi e vos será dado; buscai e encontrareis; batei e vos será aberto."  — Mateus 7:7

Em 1965, numa cidadezinha do Rio de Janeiro, uma criança de 5 anos ouviu uma passagem da Bíblia sem saber ler. Fez uma dedução lógica simples: se para chegar ao Reino é preciso não ter ódio, inveja, egoísmo, ciúme e raiva — então havia uma janela, e ela estava se fechando.

Essa percepção gerou uma inquietação que não passou. Gerou um experimento com um padre. Gerou uma tentativa numa escola de Valença com 6 anos. Gerou décadas de pensamento acumulado, de prática em campo, de erros corrigidos e de certezas construídas uma a uma.

Durante todo esse tempo, os pensamentos foram se acumulando sem uma forma definitiva. Era o período de busca — o segundo movimento da passagem. Não havia ainda clareza sobre onde tudo isso chegaria. Havia apenas a certeza de que havia algo importante a ser dito, e que ainda não era hora.

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A massa crítica

Em algum momento, os pensamentos atingiram uma massa crítica. O que havia sido vivido, observado, testado e verificado ao longo de décadas encontrou uma estrutura. A habilidade que havia sido praticada intuitivamente desde a infância ganhou um nome: comissionamento humano.

A pergunta que antes era difusa tornou-se precisa. O caminho que havia sido percorrido sem mapa começou a revelar sua lógica. E a lógica era simples: tudo que havia sido feito seguia a mesma estrutura. Partir do resultado desejado. Verificar. Corrigir. Operar.

Essa foi a batida na porta. O livro que você tem em mãos é a porta que se abriu.

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O que este livro não é

Este livro não é uma resposta definitiva. É uma diretriz — o começo estruturado de algo que pode ser desenvolvido muito além do que estas páginas alcançam. Cada capítulo é um ponto de partida, não um ponto final.

Não é uma crítica às religiões. É uma observação honesta sobre o que acontece quando os ritos externos substituem o trabalho interno — e um convite para que os dois coexistam, cada um no seu lugar.

Não é uma teoria sem prática. É a formalização de algo que foi vivido, testado e verificado. A semente foi plantada antes dos 7 anos. Os frutos estão aqui.

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O que este livro é

É um convite. Para que o ser humano assuma o papel de operador do próprio sistema interno. Para que olhe para dentro com a mesma curiosidade e rigor com que a humanidade olha para o espaço exterior. Para que cuide do que está por dentro com o mesmo cuidado que dedica ao que está por fora.

É uma proposta para a humanidade. Não grandiosa nem distante — concreta e verificável. Uma criança formada emocionalmente nos primeiros anos de vida muda o adulto que vai ser. O adulto que se transforma por dentro muda o que entrega para o mundo.

É a continuação de uma conversa que começou em 1965 — entre um padre e uma criança que não sabia ler mas conseguia ouvir, deduzir e agir. Uma conversa que chegou até você.

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O próximo passo

Este livro apresenta as diretrizes básicas. O que vem depois — os métodos detalhados, as práticas, as ferramentas específicas para cada fase da vida — está em desenvolvimento. Junto com a ASER, junto com o trabalho que já foi iniciado, junto com todos que reconhecem nessa proposta algo que fazia falta ter nome.

Se você chegou até aqui e algo ressoou — uma passagem, uma diretriz, uma história — o convite é simples: comece. Não quando as condições forem ideais. Não depois que algo externo mudar. Agora. Com o que você tem. No ponto em que você está.

O sistema está instalado. Sempre esteve. O que falta é a partida.

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Referências Bibliográficas

 

Fontes Bíblicas

Bíblia Sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida. Revisada e Corrigida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil.

Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional (NVI). São Paulo: Vida Nova.

Obras do Autor

VAZ, Marco. Regras e Lógicas dos Sentimentos e Emoções. Editora Viseu, 2025.

VAZ, Marco. Comissionamento Humano. No prelo.

VAZ, Marco. Melhores Práticas de Comissionamento. Editora Schoba, 2010.

Referências Técnicas

AACE INTERNATIONAL. Total Cost Management Framework: An Integrated Approach to Portfolio, Program and Project Management. 2nd ed. Morgantown: AACE International, 2015.

PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). Um Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos — Guia PMBOK. 7. ed. Newtown Square: PMI, 2021.

Referências Externas

COVEY, Stephen R. Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Rio de Janeiro: Best Seller, 1989.

FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração. Petrópolis: Vozes, 1946.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Sobre a ASER

ASER — Agência do Sentir, Emoção e Regulação. Ideia em desenvolvimento. Missão: gerir e coordenar o alinhamento educacional e espiritual do ser interior humano — da gestação ao fim do ciclo de vida. Conecta psicologia, neurociência, filosofia, religião, espiritualidade, educação e todas as disciplinas relacionadas ao mundo interno. Primeiro projeto elaborado: ensino emocional para crianças de 1 a 5 anos. Iniciativa de Marco Aurélio Martins Vaz. PCMsys — Projeto, Comissionamento e Montagem Ltda.